Cai, Cai, balão ...
Oi, gente, estive em Caruaru/PE neste final de semana. Fui a trabalho, mas deu para conhecer aquela que é considerada a maior das festas juninas no Nordeste. No aeroporto, soube que a TAM abriu um concurso para premiar o melhor conto sobre as festas juninas. Estava me lembrando disso num momento de folga e pensei “- Ora, por que não tentar?...” Afinal, melhor ambiente para inspiração, não poderia existir... rs.
Bem, resumindo, transcrevo o resultado aí para vocês (hoje fiquei sabendo que o conto, para concorrer a uma viagem (com direita a acompanhante), para qualquer lugar do Brasil, precisa ter, no máximo, 300 toques. Óxente! O meu não dá, não ... rs
Cai, cai, balão ...
Seu olhar perdeu-se em recordações enquanto observava as bandeirolas coloridas. Essa era a época do ano que mais lhe aflorava à memória os melhores momentos de sua já tão distante juventude.
Tudo começara numa tarde de junho, há quase 50 anos atrás, quando ela o conhecera. Havia sido escalada para trabalhar naquela pequena cidade do interior nordestino. Como jornalista, deveria cobrir o evento mais típico da localidade: a Festa de São João. Ansiava pela volta ao lar, pois os preparativos para suas tão esperadas férias, que teriam início na semana seguinte, estavam à sua espera.
Ele, viajante que era, fazia naquela cidade sua última visita antes da volta ao lar, em busca do merecido descanso, após um bom tempo de trabalho árduo. Havia visitado cada cidade daquele sertão. Na semana seguinte, partiria para o exterior em busca de novos desafios.
Quis o destino, arquiteto de planos, aproximá-los justamente naquela tarde. E, como o destino apenas se importa com resultados, despreza lógica e não mede esforços, colocá-los desatentos em seus veículos naquele tarde, foi um “prato feito” para qualquer um que acredita em coincidências (ou não). Braço e perna quebrados, em meio a muitos impropérios oi o resultado do fatídico encontro. Dele, o braço direito. Dela, o esquerdo. Quem foi o errado, nunca alguém ficou sabendo ... nem eles.
Por falta de leitos vagos no único hospital da cidade, os dois dividiram espaço numa sala improvisada e ali receberam o tratamento necessário. Recentes chuvas haviam interrompido o já precário serviço telefônico local e o correio estava fechado devido aos importantes festejos. Assim sendo, não havia alternativa a não ser aceitar o que lhes era oferecido no momento.
Olhares fuzilantes eram trocados a todo instante, enquanto lá de fora chegava a intermitente cantiga “... cai, cai, balão ...”. Assim, corriam vagarosamente as horas e qualquer ajuda, somente se fosse de um para o outro, pois os atendentes pareciam haver deles de esquecido. Mal sabiam que aquela dor não passava de uma trama do destino para que um grande amor entre os dois tivesse ali seu início.
Na noite seguinte, pela varanda do hospital assistiam juntos, trocando olhares já não tão fuzilantes, os festejos da noite de São João. O calor que sentiam não era devido à fogueira que crepitava no meio da rua e as estrelas que enxergavam também não eram aquelas dos fogos de artifício. Como ele não podia andar, ela o servia - pipoca, quentão, batata-doce, pé-de-moleque, canjica, mungunzá - enquanto acompanhavam a mesma cantiga “...cai, cai balão, você não deve de subir...”
Nunca mais se separaram. São João, tentando plagiar Santo Antonio, saíra-se muito bem e, em todos os anos seguintes, a cidadezinha recebia a visita do feliz e sempre apaixonado casal. Sempre que chegavam, antes de qualquer coisa, dirigiam-se àquele cruzamento onde o destino os apresentou. Ali depositavam uma flor e seguiam para a mesma pousada. À noite, juntavam-se ao povo na rua, como se fossem filhos do local, afinal sua história já fora contada por todas aquelas bocas.
Assim foi, durante muitos anos, até que certa vez chegaram atrasados e não houvera tempo para levar a costumeira flor ao cruzamento. Já estavam sendo esperados para compor a quadrilha. Como sempre, após a dança, trocaram juras de amor ao calor da fogueira, divertiram-se, comeram e beberam, sempre ao som de “...cai, cai, balão, você não deve de subir, quem sobe muito, cai depressa sem sentir ...”
Foi na volta que o inesperado aconteceu. Mau tempo, muito vento, chuva forte, ao passar pelo fatídico cruzamento, não perceberam que ali fora colocado um semáforo. Quem vinha apressado pela rua transversal também não esperava pelo encontro com os dois desatentos.
O choque foi fatal. Ela foi a única sobrevivente. Inconsciente foi levada ao hospital, onde permaneceu por muito tempo, em lenta recuperação.
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Esse era o primeiro mês de junho após sua cura. Não hesitou. Pediu que a levassem à cidadezinha para assistir à sua Festa de São João e lá a deixassem, pois desejava estar só. Foi o que disse a todos, mas sentia que ele a acompanharia. Sabia que havia estado com ela em cada momento. Esperou a noite chegar, dirigiu-se ao cruzamento e sentou-se na guia da calçada.
Seu olhar perdeu-se em recordações, enquanto observava as bandeirolas coloridas... Um vento soprou forte, muito forte. Ela ouviu uma voz a lhe chamar ... Um sorriso indecifrável emoldurou seus lábios. Fechou os olhos. Aos seus ouvidos chegava o som da mesma cantiga “...cai, cai, balão, você não deve de subir, quem sobe muito, cai depressa sem sentir, a ventania a sua sorte vai selar...”. Aos poucos, a melodia foi desaparecendo... seus braços penderam e de suas mãos, uma linda flor caiu ...
Escrito por Sueli às 18h33






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